Tokushima consagra a memoria de Venceslau de Moráis

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Tokushima consagra a memória  de Venceslau de Moráis por Armando Martins

Tokushima dedicou, em 1 de Julho, um monumento à memòria de Venceslau de Morais. Monumento simples e belo, sobre um bloco de granito um medalhão de bronze com o baixo, relevo do escritor, a meio corpo, tendo em baixo uma placa de bronze inscrita em japonês. Fica no extremo de Shimmachi Bashi, a principal avenida de Tokushima, tendo por fundo o verde escuro do Monte Bizan, por onde Morais costumava passear, a ver o rapazio brincar e a gente orar nos templos à borda do caminho.

De manhã cedo, antes da cerimónia, fui recolhidamente pôr flores no túmulo de Morais e Koharu, cujas cinzas estão juntas em duas caixinhas de granito, e ao túmulo de Yoné, que lhes fica perto.

Radiava um lindo sol, o primeiro que se via desde há muitos dias das chuvas intensas deste período do ano, o nyubai. Diriase que Moráis está no favor dos deuses nipónicos, que o presentaram com este glorioso sol para o seu  dia. O cemitério de Chiyo on- ji é pequeno, de lápides erectas de granito com inscrições verticais. Não se veem flores. Há em quase todas as campas ramo de sakaki, a árvore sagrada dointoismo. Morais e Yoné lá têm os seus, verdes, metidos em duas piazinhas, de cada lado.

Há uma quietação mansa, uma serenidade pagã e quase alegre, dá luz ao sol brincando entre eo túmulos pobres, dos reflexos verdes da montanha próxima. Mal dobro o pequeno carreiro do jardím, vejo sobre o túmulo de Morais um gatinho de brancura imaculada, doce e tranquilo, tomando o sol. Fico a olhá-lo, com o pensamente cheio do espírito  de Moráis e das sugestões dos seus livros. Mal me salta a ideia que o gatinho poderia ser a incarrnasȃo do espírito  de Moráis, eis que uma borboleta surge circulando em roda da lápida. Não  seriam os espíritos  de lMorais e Ko-haru que vieram, neste dia a eles consagrado, gozar a alegria  deste  sol criador, os verdes suaves do monte Bizan? Pois não disse ele: «pode bem acontecer que o espírito não suba, antes paire sobre a terra e desça a vir poisar, como um pequenino insecto guloso” “sobre as cousas que amou”?

O Monumento a Morais foi descerrado às dez horas da manhã.

A cerinónia começou por um serviço shintoista em frente ao monumento . Dois padres, de longas túnicas de seda branca, na cabeça, uma espécie  de gorro alto de xarão  preto brilhante, e enormes tamancos finos de xarão preto nos pés , oficiam. Enfrente ao monumento há um altar de madeira com as oferendas tradicionais; ao centro, o saké, que é com vinho japonês, o arroz, dois peixes, luzidios e algas, os frutos da terra e do mar; depois  vêm os cestinhos com sêmea de mochi cru, bolos  o vokan (doce de feijão) que Morais tanto gostava e que agora se vende em Tokushima, em caixas catitas com o retrato de Morais, e as frutas da estação e da terra nipónica, laranjas, pêssegos , maçãs, um prato de pepinos, uma abóbora dourada. Não há flores, apenas ramos verdes de sakaki.

O padre shintoista faz uma vénia profunda em frente ao Monumento, depois abençoa com o ramo  sagrado a audiência , que está sob urna tenda de pano garrido, branco, de listras vermelhas. A música aguda do gagaku, levada pelo fio ténue da flauta japonesa, evola-se espiritual e exótica, dissolvendo-se no azul puro criador. O sacerdote começa por invocar os deuses de Shinto.  a invocação tem a jovial frescura dum hino primitivo ao sol da manhã. Os deuses shintoistas são bons e alegres, habitam as velhas arvores das florestas, nas fontes e nos cimos das montanhas, e aceitan facilmente os votos ofertados  de coração simples e puro. Depois  põe  os olhos no rostro de Moráis e bate duas vezes as palmas, chamando o  seu espírito. Ouverm-se os nomes de Moráis, da sua esposa Yoné, da sua amante Ko-Haru. Sim, da concubina também, porque no credo shintoista  a morte é uma purificação e os espíritos, livres, não  estão  ligados aos preconceitos que nos limitam  a nós cá na terra. Um morto tornase um deus tutelar, hotoke-san. que dispensa aos vivos a sua benévola protecção. Moráis o explicou  e compreendeu, como se vê do documento mais corajoso e sincero que escreveu, o seu testamento.

Agora o padre entoa em voz profunda. Invoca os espíritos, os kamis da terra  japonesa, para que protejan e dêem  descanso e paz ao português exilado que veio deixar as suas cinzas a esta abençoada terra de Amaterasu*. A voz do sacerdote é bela e quente, vibra no sol alegre da manhã, e perde-se no verde das árvores além, onde os deuses vivem, entre as sombras e os misterios dos templos da montanha. Uma ou outra criança se atravessa ás vezes á frente do monumento com meneios de  descuidados de querer brincar entre a seriedade da gente oficial. As caras têm sorrisos, animadas pela alegria  fresca da manhã. Não  há nada de  lúgubre ou mortuário, uma alegria gentil e pagã brinca na luz dourada e os própios  espíritos  e deuses, invisíveis e presentes parecem  papear e sorrir para nós no ar azul.

Agora depoem-se no altar os ramos de sakaki, a árvore sagrada. Cada  um vai, faz  uma reverência  ao sacerdote e recebe das mãos  dele o ramo verde que vai oferecer, com urna vénia recolhida, sobre  o altar a Moráis. Eu deponho um ramo de flores, crisântemos, íris,  jasmins e rosas simples e vivas, para que não faltem ao seu gosto português das flores e possa consolar com elas a memória da sua terra distante e como o preito do único português que lho veio trazer, de coraçâo cheio de afecto e admiração, a esta terra gentil e estrangeira.

Vêm  depois os discursos oficiáis. Penetra-me o sentinento de que agora o espírito de Moráis não  aprova. Ele, que era simples e quis viver entre gente simples e pobre, desprezando honras e fórmulas oficiais, deve estar a mirar-nos com  ironia; e ironicamente  considerar na sorte dos hornens que amaram a simplicidade e a cujo génio impomos, depois da morte, as engomadas  formalidades das consagrações oficiais.

Mas se foi isto para ele sacrificio, não foi longo, porque a cerimónia findou, as mil e quinhentas pessoas presentes foram partindo, e lá ficaram a brincar à volta do monumento, as crianças de Tokushima, pequeninas e encantadoras nos seus kimonos coloridos correndo e tropeçando de pezinhos nus nas getas de madeira pintada, jogando e disputando jogos japoneses, em familiar convívio com Moráis, a quem certamente mais regozijou  esta parte imprevista  no programa.

Poucas horas depois da cerimónia shintoista foi realizado un ofício budista, no pequeno templo de Anjuji.

O bonzo, de joelhos, velho, calvo, de cara riscada pela meditação  e pelo desgosto  de contemplar os erros dos homens, veste um rico manto de seda côr de violeta, e sobre  ele uma túnica fina de clara seda amarela. A gente recolhe-se à volta, de joelhos. Muitas das pessoas da cerimónia da manhã- autoridades, intelectuais de Tokushima, algumas pessoas que conheceram Moráis. Alem, atrasado, a correr no atrio do templo, ven un japonés alto, de fino kimono de seda escura, os pés descalços  nas getas  de madeira; é un poeta de Tokuahiraa, dizem-me, conhecido em todo o Japâo.

Os fumos do incenso enchem o ar quente dum perfume suave de misticismo oriental. O bonzo recita a meia voz, numa plangência monótona e pastosa, os sagrados sutras. Agora a entoação é  profunda e sibilina, tem nas modulações repetidas o poder de invocação do mundo terrível onde vivem os espíritos, que pres­sentimos ao lado do nosso mundo, infundindo-nos o terror dos seus segredos, no qual os combates do bem e do mal toman sentidos temerosos e obscuros. Por isso estas duas religiões,  shintoismo e budismo, – uma  das apoteoses pagãs  das alvoradas e outro dos mistérios  da noite  da alma, se completam e são cridas simultaneamente por cada japonês. O  bonzo e o acólito vão entoando a lenga-lenga. Cada um dos circunstantes se levanta e vai queimar três vezes incenso em frente ao altar do Buda. Ao lado da figura de Buda, alto, de pé, há frutas, flores de papel e uma confusa exibição de símbolos, papeis escritos, caixinhas, tabletas com inscrições, objectos indescritiveis de cobre doirado velho. É a minha vez. Ajoelho em frente, faço a minha vénia e queimo o incenso três vezes.

Quando levanto os olhos para o altar vejo, pela primeira vez, a fotografia  de Venceslau de Moráis, velho, de longas barbas, com o seu sorriso japonês. Toma-me urna emoção irracional e profunda e sinto-me transportado a um, mundo imaterial, em que o meu espírito confundido comunga na admiração e afecto a Moráis, confiando-se a ele, e á sua sabedoria, sentindo-o meu, português, do mesmo sangue e da mesma lingua, entre urna floresta de ritos e símbolos estranhos, numa lingua litúrgica cujos sentidos não penetro numa atmosfera espessa de mistério que me fascina e me transpõe.

Foi este o 26 serviço budista em sufrágio de Moráis, que no seu testamento dispôs que queria ser cremado e enterrado segundo os usos e ritos budistas, e que desejava que as suas cinzas juntas ás da sua amada Ko-Haru.

À noite o Governador do distrito de Tokushima ofereceu um jantar numa casa de gueishas, com os pratos japoneses tradicionais: peixe cru, sashimi, fritos de tempura. e muitas mais variedades, em pequenos pratos de porcelana colorida, arranjados artisticamente na bandeja de xarão. Comemos de joelhos, sobre o tatami. Raparigas de Tokushima, risonhas e belas, vinham servir, sentando-se ao lado de cada hóspede, pródigas de gentilezas e sorrisos, abanando o leque. Depois as gueishas dançaram, ao som do chamisen , as danças de  Tokushima, o Bon-Odori querido de Moráis, entre cujos cantos a pobre Koharu pasou numa maca, tísica, para ir morrer no hospital Kokawa.

A dança  é graciosa, os braços movem-se em ritmos ora espertos, ora demorados, abanando as mangas floridas do kimono, e a música, embora com a alegria nostálgica de toda a música japonesa, é mais rápida e viva.

Aquí senti eu o espírito de Moráis bem presente, satisfeito e sorrindo à animada e grácil beleza destas mulheres vestidas de sedas floridas, marcando com os pezinhos de tabis alvos de neve e as mãos pequeninas e leves como pétalas, o ritmo do Bon-Odori; o espírito de Morais estava de certo presente e feliz entre esta graça e gentileza das mulheres japonesas que o prenderam a este país para sempre.

À noite, no quarto japonês do hotel, de chão  de tatami de branda palha de arroz estendido no futon tradicional, como Moráis dormia, olhando o jardinzinho fresco, com árvores sabiamente recortadas e lanternas de pedra, através das largas portas de correr, fiquei longamente a pensar nos dezasseis anos do compatriota exilado nesta pequena cidade de Tokushima. Como seria duro, Ionge de Portugal, perdidas as duas mulheres que amou, entre um povo estranho e nom sempre amigo, que hoje lhe quere bem e Ihe chama respeitosamente Morais-san, e que então  lhe chamava apenas kétoijin-san. o senhor selvagem barbudo.

Tokushima é hoje outra, modernizada, próspera, catita, dobrou a população, é um centro industrial importante e, ao passarse nas ruas do centro, não se encontra nada da atmosfera descrita nos livros de Moráis. Onde ela está aínda é na sua rua, Iga-chô, estreita, longa e verde, uma dessas ruas tranquilas e pobres de arrabalde por onde o tempo não passa, que nunca se alteram nem modernizam, que têm sempre a mesma idade, as mesmas casas velhas, as mesmas crianças; brincando, e o mesco velho camponês a afiar o machado ao portal, que là deixei e juraría lá está a aliar acocorado desde o tempo de Morais. A casa de Moráis foi destruida por uma bomba que tudo queimou. Construiram no mesmo sítio uma casinha nova, dum alfaiate que nos exibe umas pinturas modernas de Moráis, de horrível  gosto e com o ar solícito de quem está a preparar para os filhos uma fonte de renda turística.

A noite é longa e quente. E eu medito na extraordinária  razâo que levou este português a abandonar o seu mundo, o afecto de familiares e amigos, o conforto consolador de se ouvir à volta a nossa própria  língua, por esta cidade provinciana, pacata e sem interesse, por este outro país belo de lendas, de cores e de paisagens paradisíacas, tão encantador e tão estranho. De repente ouço na rua detrás do hotel a flauta lánguida do shina sobaya. Sabem quem é, Moráis fala nele varias vezes. É um pobre noctívago, provavelmente poeta e pai de muitos filhos, que tarde pela noite passa a puxar o seu pequeño carrinho em que cozinha malgas de soba uma especie de macarrão. O vagido melancólico da sua flauta corta a noite de tristeza e deixa-a aínda mais ensombrada de solidão. É uma das poucas vozes que subsiste da velha Tokusima, do velho Japâo, dessas vozes que o tempo não cala, que levantam na alma revoadas de recordares e de recordaçôes e de anseios.

Nâo vale de nada ver mais de Tokushima. Percorri as suas ruas, andei os caminhos da montanha, fui atravessar os campos verdes …..